SONHO
Desfilavas altiva e graciosamente pela casa, que era aquela, mas não havia nada mais de antigo.
Tudo fora modificado.
Andavas, belíssima, em saltos tão altos, sobrepondo-te à minha altura.
E me olhavas de cima por sobre os saltos, como se fosses maior em tudo.
Mostravas-me a nova mobília, quase todos os móveis enfileirados, mas esteticamente em harmonia.
Fazias tal, com tal desprezo por mim, que dava arrepios medonhos.
Perguntava-me em pensamento: “- O que faço aqui?”.
Uma mesa, idêntica à minha, de nogueira e longa, estendia-se sobre um canto da sala. Notava-se-a.
O animal era o mesmo, com pelos curtos, tosados, tingidos de turquesa;
havia uma filhotinha ao seu lado, também azul.
Quando fui ao seu encontro, abanava o rabinho, como outrora e eu chorava dizendo que tive muita saudade e a emoção,
como em todo animal, fê-lo discretamente urinar. Enfim, cada qual expressando saudade e alegria em rever-se, a sua maneira: desidratávamos.
Percebi que não voltava para lá, mas fora convidada à visitação, mas de forma velada, sem revelação de números
de telefone ou intenção de mantermos contato, ou revermo-nos após.
Fora breve a visita e sem propósito aparente.
Saí. Tomei um elevador, o mesmo, porém, reformado.
Conduzia-me ele ao destino num ir e vir, como uma montanha-russa.
A descida não parecia acabar. Causava grande desconforto.
Ao chão, tive a sensação de ter esquecido minha bolsa.
E bolsa feminina, vamos lá! É quase a pessoa desnudada em poder de outrem quando esquecida.
Telefonei para o número antigo que, então, ainda dele me lembrava e fui atendida pela ex-cunhada.
Pedi a ela que guardasse a bolsa, pois não iria enfrentar aquela subida pavorosa novamente.
Certamente, reaveria o pertence em breve. Ou não. A sensação era a de que o fato pouco importava.
Mas alguém me esperava em casa e rapidamente quis voltar.
Penso que a bolsa feminina, para além de um “trailer” ambulante, parece o próprio útero feminino.
O útero da dona dela. E eu deixei o meu lá. Talvez para sempre.
E o que quer dizer esse útero simbólico lá?
Que queria cuidar de algo que parecia parido por mim, em boa hora não o tivesse sido?
Sei, apenas, que fui ao encontro de meu destino atual e futuro, delicadamente redelineado a quatro mãos.
Mais uma vez...
Deixei uma parte de mim lá, mas não me fazia falta!
Na verdade, não faz...

Escrito por Barbara Carvalho às 23h32
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