SE AMANHÃ EU DISSESSE
E se eu dissesse amanhã que foi cedo demais
ou que foi muito tarde.
E se eu dissesse amanhã que nada mudou
ou que nada está como antes.
E se eu dissesse amanhã que tenho ferida de morte a alma
ou que, por seu sopro, a vida me inspira cada poro.
E se eu dissesse amanhã que eu procurava a paz
ou que ela, hoje, até me incomoda.
E se eu dissesse amanhã que o horizonte que eu via
é o mesmo que vejo sem a presença sua.
E se eu dissesse amanhã que aquele arco-íris visto
permanece monocromático – paradoxo –
ou que ele irisou-se em excesso.
E se eu dissesse amanhã que a sensação da última vez
percorreu-me sempre desde a primeira
Ou que a sensação da primeira vez perdurou até a última
E se eu dissesse amanhã,
se amanhã eu dissesse.

"Novamente um mar. O entardecer
é a praia onde morremos juntos, quando as nossas mãos se transformam em veleiros que partem com o vento e nós somos, apenas, o fruir deslumbrado do silêncio. Moramos entre pinheiros altos e, do chão, apenas a relva vermelha nos pode resgatar. Aquilo que dizemos coincide com a terra renovada. Por isso, as searas hão-de vir rodear-nos a cintura
e escreverão no pão a nossa fome".
Escrito por Barbara Carvalho às 23h55
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