LIMITE
No primeiro dia, a morte me rondava.
Não havia cor no céu, nem luz.
Não podia ouvir qualquer som,
além do abafado pranto em meu peito
teimando por sair.
No momento segundo, tomei-me de todos os objetos
que me te traziam à lembrança
e os fechei em uma caixa.
Fixei-a em terra, para que somente eu pudesse levá-la e
deixei a chave esquecida em um canto conhecido apenas por mim.
No momento seguinte, busquei arrancar da alma e do peito
as memórias boas e más, o que fora desbravado e o que fora escondido
- bem mais, ainda, da tua invasão avassaladora -
- bem mais, ainda, de ti, inteira.
Arranquei de mim os dias e as noites de amor e os de desespero,
as marcas de todo o prazer e de toda a dor.
Desprendeu-se tua voz da minha memória,
teus escritos afastei dos meus olhos
e tua essência tirei do meu coração.
Li e reli, vi e revi tua bipolaridade;
percorri tua ternura e o teu rancor;
teu sabor acre e doce;
tuas lágrimas verdadeiras e as dissimuladas;
minha devotação e o teu descontentamento.
Restou jogar fora a caixa e perder dela a chave;
desalinhar meus pensamentos de ti e de nós;
despistar a morte da alma e lembrar que ainda há vida
para mim e para quem me abrace forte.
Escrito por Barbara Carvalho às 00h26
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